O presidente dos EUA, Donald Trump, provocou um debate global ao afirmar que o consumo de paracetamol por gestantes pode causar autismo. Em evento, ele declarou:
"Os médicos serão notificados sobre o uso do acetaminofeno, que geralmente é conhecido como Tylenol. Durante a gravidez, pode estar associado a um risco elevado de autismo. Portanto, tomar Tylenol não é bom", declarou Trump, na presença do secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., um crítico das vacinas.
A farmacêutica Kenvue, fabricante do Tylenol nos EUA, respondeu que "a ciência independente e sólida" não confirma essa ligação e alertou que tais afirmações podem afetar a saúde das gestantes.
Em 2017, circulou nas redes sociais uma publicação antiga indicando cautela no uso do produto durante a gravidez, embora o conteúdo tenha sido posteriormente apagado.
A página oficial do Tylenol reafirmou que estudos de organizações médicas reconhecidas não comprovam relação entre paracetamol e autismo, recomendando consulta médica para gestantes e lactantes.
O que dizem as agências de saúde e a comunidade científica
Após as declarações, a Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu cautela. Tarik Jasarevic, porta-voz da entidade, afirmou: “Se a relação fosse consistente, teria sido observada em múltiplos estudos. A falta de replicabilidade exige cuidado ao tirar conclusões causais".
A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) afirmou que o paracetamol pode ser usado durante a gestação, se clinicamente necessário, na menor dose eficaz e pelo menor tempo possível. Steffen Thirstrup, diretor médico da agência, reforçou que não há evidências de relação com autismo.
A comunidade científica também criticou a declaração de Trump. O epidemiologista Eric Feigl-Ding citou estudo com 2,5 milhões de crianças que não encontrou aumento no risco de autismo ligado ao uso do medicamento durante a gravidez.
Estudos que geram dúvidas
Apesar de o paracetamol ser considerado seguro por décadas, pesquisas recentes levantam dúvidas. Um estudo publicado na revista "Paediatric and Perinatal Epidemiology" reuniu 22 trabalhos e indicou associação entre exposição pré-natal ao medicamento e risco ligeiramente maior de TDAH, aumentando conforme a duração do uso.
Outras pesquisas, embora inconclusivas, apontam possíveis ligações entre o paracetamol e autismo. Outro estudo, da "Nature Mental Health" indicou que a presença do fármaco no plasma durante o segundo trimestre da gestação estaria associada a três vezes mais chances de diagnóstico de TDAH nos filhos.
Agências de saúde reforçam que resultados ainda são inconclusivos, mantendo recomendações atuais e alertando para uso responsável: menor dose pelo menor tempo necessário.