Paracetamol e autismo: o que está por trás da 'denúncia' de Trump?

O presidente dos EUA, Donald Trump, provocou um debate global ao afirmar que o consumo de paracetamol por gestantes pode causar autismo. Em evento, ele declarou:
"Os médicos serão notificados sobre o uso do acetaminofeno, que geralmente é conhecido como Tylenol. Durante a gravidez, pode estar associado a um risco elevado de autismo. Portanto, tomar Tylenol não é bom", declarou Trump, na presença do secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., um crítico das vacinas.
We actually don't recommend using any of our products while pregnant. Thank you for taking the time to voice your concerns today.
— TYLENOL® (@tylenol) March 7, 2017
A farmacêutica Kenvue, fabricante do Tylenol nos EUA, respondeu que "a ciência independente e sólida" não confirma essa ligação e alertou que tais afirmações podem afetar a saúde das gestantes.
Em 2017, circulou nas redes sociais uma publicação antiga indicando cautela no uso do produto durante a gravidez, embora o conteúdo tenha sido posteriormente apagado.
A página oficial do Tylenol reafirmou que estudos de organizações médicas reconhecidas não comprovam relação entre paracetamol e autismo, recomendando consulta médica para gestantes e lactantes.
O que dizem as agências de saúde e a comunidade científica
Após as declarações, a Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu cautela. Tarik Jasarevic, porta-voz da entidade, afirmou: “Se a relação fosse consistente, teria sido observada em múltiplos estudos. A falta de replicabilidade exige cuidado ao tirar conclusões causais".
"Si la relación entre el paracetamol y el autismo fuera sólida, probablemente se habría observado de forma sistemática en múltiples estudios. La falta de replicabilidad exige cautela al extraer conclusiones causales sobre el papel del paracetamol en el autismo"Portavoz OMS @WHOpic.twitter.com/8B3jKhRSFM
— Noticias ONU (@NoticiasONU) September 23, 2025
A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) afirmou que o paracetamol pode ser usado durante a gestação, se clinicamente necessário, na menor dose eficaz e pelo menor tempo possível. Steffen Thirstrup, diretor médico da agência, reforçou que não há evidências de relação com autismo.
A comunidade científica também criticou a declaração de Trump. O epidemiologista Eric Feigl-Ding citou estudo com 2,5 milhões de crianças que não encontrou aumento no risco de autismo ligado ao uso do medicamento durante a gravidez.
Estudos que geram dúvidas
Apesar de o paracetamol ser considerado seguro por décadas, pesquisas recentes levantam dúvidas. Um estudo publicado na revista "Paediatric and Perinatal Epidemiology" reuniu 22 trabalhos e indicou associação entre exposição pré-natal ao medicamento e risco ligeiramente maior de TDAH, aumentando conforme a duração do uso.
Outras pesquisas, embora inconclusivas, apontam possíveis ligações entre o paracetamol e autismo. Outro estudo, da "Nature Mental Health" indicou que a presença do fármaco no plasma durante o segundo trimestre da gestação estaria associada a três vezes mais chances de diagnóstico de TDAH nos filhos.
Agências de saúde reforçam que resultados ainda são inconclusivos, mantendo recomendações atuais e alertando para uso responsável: menor dose pelo menor tempo necessário.
