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Escritor alerta para risco de retrocesso social com uso excessivo da inteligência artificial

Jornalista defende que escrita é tecnologia do pensamento e cobra ações urgentes nas escolas.
Escritor alerta para risco de retrocesso social com uso excessivo da inteligência artificialRAWPICK/FREEPICK

O escritor e jornalista Sérgio Rodrigues lançou na última quinta-feira (18), em Brasília, a obra "Escrever é humano: como dar vida à sua escrita em tempo de robôs", na qual faz um alerta direto: o avanço das ferramentas de inteligência artificial pode comprometer profundamente a capacidade humana de escrever, pensar e se comunicar de forma crítica.

Na avaliação de Rodrigues, atividades cotidianas como redigir uma carta de amor, uma poesia, uma redação escolar ou até um simples recado na porta da geladeira estão sob ameaça com a substituição da escrita pela tecnologia.

"Mais do que pelo mercado de trabalho, eu temo um retrocesso civilizatório e intelectual", afirmou em entrevista à Agência Brasil, publicada na segunda-feira (15).

Segundo o autor, a escrita não é apenas uma forma de comunicação, mas uma tecnologia de pensamento que estrutura a forma como o ser humano interpreta o mundo. "No momento em que você terceiriza e não usa mais essa medida, se esquece", disse.

Rodrigues argumenta que, embora a inteligência artificial seja uma ferramenta com potencial de apoio, ela "não pode ser a mestre ou dona da pessoa". Para ele, a IA representa um simulacro da linguagem humana, mas é incapaz de reproduzir a subjetividade essencial que caracteriza a verdadeira criação artística e literária.

A preocupação do escritor se estende às escolas, que, segundo ele, correm o risco de perder o controle sobre o processo de aprendizagem da escrita. "Se a escola não criar um ambiente em que isso seja severamente controlado, a própria habilidade da escrita não vai ser desenvolvida por aquelas crianças mais", alertou.

Rodrigues cita o exemplo da Finlândia, que após introduzir computadores em sala de aula, optou por bani-los completamente. Ele defende a criação de "espaços seguros para o pensamento e a escrita", livres da interferência das máquinas.

Sobre o papel das famílias, o autor destaca a importância do exemplo dentro de casa. "É preciso que a família leia e também valorize isso. Espero que não seja tarde demais", disse.

Na avaliação do escritor, a sociedade já caminhava rumo à superficialidade, e a inteligência artificial apenas acelerou esse processo. Ele vê o uso irrestrito das ferramentas digitais como um fator que compromete o pensamento crítico e favorece comportamentos automatizados, como o consumismo online.

Ao comentar o cenário político, Rodrigues afirmou que o maior desafio atual no campo da IA é a regulamentação internacional, tema que, segundo ele, enfrenta forte resistência dos grandes grupos econômicos. "É onde tem os lobbies mais pesados do capital. E as big techs estão muito determinadas a não deixar que nenhum tipo de regulamentação seja feita", afirmou.

Para o autor, o abandono da escrita pode levar a uma perda de ferramentas fundamentais para lidar com o outro. "A falta de escrita e leitura faz com que a pessoa perca as ferramentas que tinha para lidar com o outro", concluiu.