Hacker da Vaza Jato: Zambelli me pediu para 'comprovar' que urnas são violáveis em troca de emprego

Em depoimento na Câmara dos Deputados, Walter Delgatti Netto disse estar "muito arrependido" e detalhou pedidos para "desacreditar" a segurança das urnas eletrônicas e do Judiciário brasileiro.

Em depoimento à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados nesta quarta-feira (10), Walter Delgatti Neto, conhecido como "hacker da Vaza Jato", afirmou que a deputada federal licenciada Carla Zambelli (PL-SP) o pediu para invadir sistemas da Justiça em troca de um emprego.

Segundo Delgatti, Zambelli teria solicitado provas que "desacreditassem" a segurança das urnas eletrônicas, bem de como todo o Judiciário nacional. A deputada teria ordenado comandos específicos a serem executados depois da invasão do sistema, incluindo a emissão de um mandado de prisão contra Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

"Ela [Zambelli] chegou a me enviar a síntese do despacho de prisão contra Moraes e me pediu para invadir e desacreditar o sistema de Justiça. Ela disse: 'Quero que você invada para comprovar que (a urna) não é segura'", afirmou.

A deputada, segundo o hacker, teria dado liberdade total para acessar ilegalmente diversos canais do Judiciário, em especial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Delgatti optou pelo sistema do Conselho Nacional de Justiça "porque ele dá acesso aos demais, como o Banco Nacional de Mandados de Prisão".

"Eu usei o CNJ como um meio para chegar no TSE e no STF", explicou Delgatti.

O hacker afirmou ainda ter recebido apoio financeiro de um terceiro ligado a Zambelli, sem revelar a identidade. A deputada teria prometido um emprego, o que levou Delgatti a aceitar invadir os sistemas.

"Ela me disse que, fazendo isso, eu estaria salvando a democracia, o Brasil", ressaltou Delgatti, afirmando que ficou "muito arrependido" após ter concordado com Zambelli, que por sua vez não cumpriu as promessas.

Reunião com presidente do PL

Ainda de acordo com o depoimento na Câmara, o depoente mencionou uma reunião que teria ocorrido "em um prédio do Partido Liberal (PL)", junto com o presidente do partido, Valdemar Costa Neto.

"Queriam que eu desse uma entrevista com ataque às urnas e que eu alterasse um voto em uma urna eletrônica para que o público visse", delatou.

Questionado pelos deputados sobre o envolvimento de outros parlamentares nos crimes, Delgatti se recusou a citar nomes e alegou que decidiu colaborar com as investigações porque ficou "muito arrependido".

Zambelli condenada

Em 14 de maio, o STF condenou a deputada Carla Zambelli (PL-SP) e o hacker Walter Delgatti Neto por invasão ao sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Zambelli recebeu pena de 10 anos de prisão e perda de mandato, enquanto Delgatti, preso desde 2023, foi condenado a 8 anos e 3 meses.

O processo de cassação da parlamentar foi enviado à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) em 12 de junho pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e tem como relator o deputado Diego Garcia (Republicanos-PR).

Segundo o regimento da Casa, Zambelli dispõe de até cinco sessões da CCJ para apresentar defesa. Após esse prazo, o colegiado decidirá se arquiva o processo ou se dá andamento ao pedido de cassação.