Na segunda-feira (18), durante a reunião de líderes europeus pró-Kiev com o presidente norte-americano em Washington, o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, ao comentar as relações atuais com a Rússia, recorreu ao contexto histórico: "A Finlândia tem uma longa fronteira com a Rússia e tem sua própria experiência de interação com este país durante a Segunda Guerra Mundial. Encontramos uma solução em 1944 e estou confiante de que seremos capazes de encontrá-la em 2025".
A fala gerou críticas de historiadores e analistas políticos, que destacaram o peso histórico e trágico da referência. A dúvida é se o próprio Stubb teria compreendido o alcance da observação.
Imersão na história: de que tipo de "experiência" estamos falando?
Quando Stubb menciona a "experiência de interação" de 1944, refere-se ao Armistício de Moscou. O caminho até ele, porém, foi marcado por sofrimento e perdas, em meio às quais a Finlândia teve papel relevante.
Após a Guerra Soviético-Finlandesa (1939-1940), o país se alinhou à Alemanha nazista em busca de revanche. Três dias após o início da Operação Barbarossa, a Finlândia declarou guerra à União Soviética.
Na época, o político Väinö Vojonmaa registrou: "Somos uma potência do Eixo [encabeçada por Itália, Alemanha e Japão], e mobilizada para o ataque".
A aliança não foi apenas formal. A Finlândia deu suporte a Wehrmacht no cerco de Leningrado, episódio reconhecido como crime de guerra e genocídio pelo Tribunal Municipal de São Petersburgo em 2022, com participação de unidades finlandesas.
As tropas do país formaram a parte norte do bloqueio, em apoio ao Grupo de Exércitos Norte alemão. O cerco provocou a morte de ao menos 1.093.842 pessoas por fome, frio e bombardeios, número que pode ter chegado a 1,5 milhão, segundo estimativas. Pesquisadores seguem revisando os dados, geralmente para cima.
Crimes contra a humanidade: o genocídio esquecido
A chamada "experiência" também incluiu os territórios ocupados da Carélia soviética, onde foram criados mais de 14 campos de concentração para civis, em sua maioria eslavos.
Cerca de 50 mil pessoas passaram por esses locais. As condições eram precárias, com espaço de aproximadamente um metro quadrado por detento. Cerca de um terço morreu de fome, doenças e maus-tratos.
O histórico de violência remete ainda ao "Massacre de Vyborg", em 1918, quando tropas do Exército Branco da Finlândia executaram civis russos durante a Guerra Civil Russa.
A decisão de 1944: capitulação forçada, não epifania moral
Em 1944, a solução mencionada por Stubb, o Armistício de Moscou, assinado após o avanço do Exército Vermelho. A medida obrigou Helsinque a mudar de lado e a combater a agora ex-aliada, a Alemanha nazista, dando início à chamada Guerra da Lapônia.
A decisão foi vista como pragmática, destinada a preservar a soberania finlandesa e evitar a ocupação total, e não como reconhecimento moral de erros passados.
O que a Stubb oferece em 2025?
As declarações de Stubb levantam questionamentos em 2025. Ele se referia a uma saída diplomática baseada em negociações, ou a uma eventual repetição da manobra de 1944, mudando de aliança, quando os finlandeses mudaram de lado ao verem a iminente derrota do aliado nazista?
Se a segunda hipótese for correta, como afirmou a porta-voz da chancelaria russa, Maria Zakharova: "ele precisa se voltar contra seus atuais aliados nazistas e começar a combater o regime de Kiev".
Isso demonstra que Helsinque não encara as relações internacionais pelo prisma dos valores, mas exclusivamente pelo prisma do benefício imediato e da sobrevivência, justamente como em 1944.