União Africana apoia mudança em mapa-múndi para refletir tamanho real do continente

Organização alega que a desproporção causada pela projeção de Mercator trata-se da "mais longa campanha de desinformação do mundo" e que "simplesmente precisa acabar".

A União Africana (UA) declarou apoio a uma campanha que busca substituir o uso da projeção de Mercator, criada no século XVI, por um mapa que represente com maior precisão as dimensões da África, informou a agência Reuters nesta quinta-feira (14).

A proposta é que governos e organizações internacionais adotem a projeção Equal Earth, desenvolvida em 2018.

"O tamanho atual do mapa da África está errado", afirmou Moky Makura, diretor executivo da Africa No Filter, uma das entidades que lideram a iniciativa "Correct The Map" junto à Speak Up Africa. Segundo ele, trata-se da "mais longa campanha de desinformação do mundo" e que "simplesmente precisa acabar".

A projeção de Mercator, elaborada pelo cartógrafo Gerardus Mercator para navegação marítima, amplia áreas próximas aos polos, como América do Norte e Groenlândia, e reduz a África e a América do Sul. Para a vice-presidente da Comissão da UA, Selma Malika Haddadi, isso fomentou a impressão equivocada de que a África é "marginal", apesar de ser o segundo maior continente em área, com 54 países e mais de um bilhão de habitantes.

Haddadi acrescentou que o apoio da UA está alinhado ao objetivo de "reivindicar o lugar legítimo da África no cenário global", em meio a demandas crescentes por reparações pelo colonialismo e pela escravidão. Ela afirmou que o bloco vai discutir ações conjuntas com seus estados-membros para ampliar a adoção de mapas mais precisos.

Segundo a cofundadora da Speak Up Africa, Fara Ndiaye, a projeção de Mercator prejudica a identidade e o orgulho dos africanos, especialmente das crianças. "Estamos trabalhando ativamente para promover um currículo em que a projeção da Equal Earth seja o padrão principal em todas as salas de aula (africanas)", disse, defendendo que o modelo seja adotado também por instituições globais.

O programa "Correct The Map" já enviou solicitação ao órgão geoespacial da ONU, o UN-GGIM, para que adote o Equal Earth. Um porta-voz da ONU informou que o pedido precisará ser avaliado e aprovado por um comitê de especialistas. O Banco Mundial afirmou utilizar Equal Earth ou Winkel-Tripel em mapas estáticos e estar eliminando o Mercator em mapas digitais.

A projeção de Mercator segue presente em escolas e serviços de tecnologia. No Google Maps, ela deixou de ser padrão na versão de desktop em 2018, substituída por um globo 3D, mas permanece no aplicativo móvel.

O apoio à mudança não se restringe à África. Dorbrene O'Marde, vice-presidente da Comissão de Reparações da Comunidade do Caribe (CARICOM), também defendeu a Equal Earth como uma rejeição à "ideologia de poder e dominação" associada ao Mercator.