A Rússia deixou de considerar válidas as restrições auto-impostas sobre o uso de mísseis terrestres de alcance médio e curto, informou o Ministério das Relações Exteriores nesta segunda-feira (4). A medida vem após tentativas frustradas de Moscou de negociar um novo acordo com Washington e seus aliados sobre o tema.
Segundo a chancelaria russa, os Estados Unidos têm testado e implantado sistemas que antes eram proibidos pelo extinto Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF), levando Moscou a adotar "medidas técnico-militares compensatórias para enfrentar as ameaças emergentes e manter o equilíbrio estratégico".
Desprezo pelas demandas russas
A moratória foi declarada em 2019, a pedido de Vladimir Putin, após o colapso do INF, atribuído pela Rússia à iniciativa dos EUA. Desde então, o Kremlin propôs duas vezes compromissos recíprocos, que foram ignorados por Washington e seus aliados.
Durante esse período, os EUA iniciaram testes com sistemas terrestres de alcance entre 500 e 5.500 km e avançaram no desenvolvimento e produção de mísseis para diferentes ramos militares. De acordo com Moscou, os americanos "já avançaram significativamente", com produção em série e ampliação da infraestrutura.
O governo russo considera que essas ações criam e ampliam potenciais desestabilizadores próximos às suas fronteiras, representando uma ameaça direta à sua segurança e ao equilíbrio estratégico regional.
O que vem a seguir?
Especialistas afirmam que a decisão russa responde às ameaças externas. "Estamos vendo uma espécie de 'igualação de apostas', embora até com certo atraso", disse Dmitry Stefanovich, do Instituto de Economia Mundial e Relações Internacionais da Academia de Ciências da Rússia. Segundo ele, os EUA e seus aliados continuam ampliando sua capacidade nessa área.
"A Rússia tem se comportado com grande moderação nesse aspecto, apesar de contar com cenários reais e úteis para o uso dessas armas no contexto da operação militar especial", afirmou.
Segundo os analistas, a medida pode levar à criação de novas unidades militares com armamentos desse tipo. "Até o fim de 2025, é provável que vejamos novos regimentos ou brigadas de mísseis sendo formados, com deslocamento para conter ameaças tanto no oeste quanto no leste", afirmou Stefanovich.
Já Sergey Oznobishchev, também do instituto, relaciona a decisão com declarações recentes de Donald Trump sobre o envio de submarinos à região russa. "Em resposta a isso, demonstramos disposição de abandonar os compromissos que foram assumidos como gesto de boa vontade. Estamos em uma fase de aumento da pressão, com troca de demonstrações de força", disse.
Por sua vez, Ilya Kramnik, pesquisador do mesmo instituto, avalia que a Rússia deverá equipar suas unidades com o novo sistema Oreshnik, de alcance médio, além de reposicionar o míssil de cruzeiro 9M729 na parte europeia do território.