
Lobby israelense molda política externa dos EUA e garante apoio incondicional

O apoio incondicional dos Estados Unidos a Israel, frequentemente debatido no cenário internacional, se manifesta mesmo em meio a divergências políticas e estratégicas. A recente ofensiva contra instalações nucleares do Irã volta a demonstrar a força da aliança entre Washington e Tel Aviv, sustentada por décadas de articulação política, lobby legislativo e financiamento de campanhas.

Durante encontro realizado na segunda-feira (8), o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que a criação de um Estado palestino representaria uma ameaça à soberania de Israel, considerando essa possibilidade como uma solução pouco realista.
Em paralelo, Trump declarou que as negociações para encerrar as ofensivas na Faixa de Gaza estão avançando, apesar do fracasso das duas rodadas de diálogos indiretos entre representantes de Tel Aviv e do Hamas, no Catar.
Mesmo diante de desacordos pontuais, como os registrados ao longo das últimas décadas, a cooperação entre os dois países permanece sólida. O apoio norte-americano às recentes ações militares contra o Irã evidencia mais uma vez os laços estreitos entre as duas nações. Essa parceria é fruto de longa coordenação institucional e interesses estratégicos compartilhados.
O papel do lobby israelense
Um dos pilares dessa articulação é o Comitê de Assuntos Públicos Estados Unidos–Israel (AIPAC), com sede em Washington e aproximadamente 400 funcionários. A organização exerce forte influência no Congresso dos EUA, moldando o discurso político em torno do Estado israelense e assegurando benefícios como ajuda militar, apoio econômico e cobertura diplomática.
Netanyahu já declarou publicamente que seu governo conseguiu aprovar legislações em diversos estados norte-americanos que preveem sanções a quem tentar boicotar Israel.
Além da atuação legislativa, há outro fator determinante: o financiamento de campanhas eleitorais. Segundo Abu Faisal Sergio Tapia, diretor do Conselho Internacional Geopolítico sobre a Ásia Ocidental em São Paulo, esse apoio financeiro assegura que não haja mudanças substanciais na política externa norte-americana, independentemente de quem ocupe a Casa Branca ou o Congresso.
"Eles financiam diretamente as campanhas, o que estabelece que não importa quem chegue à presidência ou ao Congresso. Todos estarão destinados à política externa de Israel", afirmou.
Financiamento bilionário e influência institucional
Dados divulgados pelo próprio AIPAC revelam que, nas eleições de 2024, o comitê gastou 53 milhões de dólares para apoiar candidatos tanto do Partido Democrata quanto do Partido Republicano, com o objetivo de fortalecer o apoio a Israel dentro do Congresso.
Segundo Abu Faisal, os Estados Unidos destinaram mais de 300 bilhões de dólares a Israel nas últimas sete décadas. Esses valores foram utilizados, segundo ele, para manter "uma política de agressão perpétua".
A influência do lobby israelense já motiva reações entre alguns parlamentares. Ferramentas como o site "AIPAC Tracker" passaram a monitorar as doações feitas a cada candidato, revelando a extensão dessa rede de influência. Alguns políticos começaram a se afastar publicamente das doações de grupos ligados a Israel, como é o caso do republicano Thomas Massie e da democrata Alexandria Ocasio-Cortez.

Decisões estratégicas e marcos da aliança
A aliança entre os dois países resultou em decisões estratégicas marcantes nos últimos anos. Em 2016, os EUA firmaram um memorando de entendimento com Israel para fornecer 38 bilhões de dólares em ajuda militar ao longo de uma década, o maior pacote desse tipo na história norte-americana.
Em 2017, Washington reconheceu Jerusalém como a capital de Israel e, em maio de 2018, a administração Trump retirou os Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã.
O episódio mais recente desse alinhamento, apontado por alguns como aliança e por outros como submissão, foram os bombardeios norte-americanos contra as instalações nucleares iranianas, reforçando o compromisso dos Estados Unidos com os interesses estratégicos de Tel Aviv.

