Mídia dos EUA elogia saúde no Brasil: 'direito básico garantido na Constituição'

Jornalista do The Washington Post relata atendimento gratuito em hospital público após acidente no litoral do Rio.

Uma viagem em família ao litoral do Rio de Janeiro terminou com um acidente doméstico, atendimento de emergência e uma constatação que surpreendeu um jornalista norte‑americano Terrence McCoy: todo o serviço prestado, do transporte por ambulância à realização de exames de imagem, saiu por R$ 0.

Em reportagem publicada no The Washington Post no último domingo (29), o chefe do escritório da jornal no Rio de Janeiro narra uma experiência pessoal vivida após sofrer um ferimento na cabeça, em um vilarejo na região de Paraty, onde estava com a esposa e o filho pequeno.

A família se preparava para encerrar as férias quando o jornalista foi atingido pela porta do porta‑malas do próprio carro, cuja estrutura metálica já apresentava sinais de ferrugem.

O impacto causou um corte profundo na cabeça. Com sangramento intenso, ele caiu no chão e pediu ajuda à esposa. Vizinhos acionaram uma ambulância, que chegou pouco depois. O atendimento foi feito pelo Hospital Municipal Hugo Miranda, da rede pública. Ainda no local, os primeiros socorristas realizaram os procedimentos iniciais, aplicaram curativos e o transportaram para a unidade hospitalar.

Durante as seis horas seguintes, o jornalista recebeu medicação, levou seis pontos no ferimento, fez raio‑X, passou por uma tomografia e teve alta com prescrição de analgésicos e antibióticos. Nenhum documento foi solicitado, tampouco houve menção a plano de saúde ou cobrança.

"Uma das minhas primeiras preocupações foi saber quanto isso iria me custar", escreveu. "Seis horas depois, tive a resposta: R$ 0", pontou surpreso. 

A reportagem também narra a sequência do episódio, com o agravamento da febre do filho do casal, que chegou a 40,5 °C. A criança foi atendida no mesmo hospital, diagnosticada com amigdalite, e recebeu medicação. Também nesse caso, o atendimento foi gratuito.

''Direito básico''

O jornalista destaca que, embora viva no Brasil há seis anos, a família optava por usar o sistema de saúde privado, onde o filho nasceu e faz acompanhamento pediátrico. A experiência no sistema público, no entanto, mostrou um modelo com fundamentos diferentes do norte‑americano.

"A saúde é um direito básico no Brasil, garantido pela Constituição. Os 215 milhões de brasileiros, além de 2 milhões de residentes estrangeiros, têm acesso ao atendimento gratuito pelo Sistema Único de Saúde, o SUS", escreveu em artigo publicado no Washington Post.

Segundo dados citados pelo jornalista na publicação, o sistema realiza cerca de 2,8 bilhões de atendimentos por ano, e mais de 70% da população depende exclusivamente dele.

A publicação também menciona desafios enfrentados pelo SUS, como falta de recursos, greves e longas filas para atendimentos especializados, além da sobrecarga durante a pandemia de Covid‑19.

"Não vamos deixar esse programa fracassar. Porque os pobres precisam ser tratados como gente", escreveu o Terrence McCoy, ao relembrar que o ex‑presidente Jair Bolsonaro chegou a propor a privatização do sistema, mas recuou diante da reação popular.

Ele ressalta que o presidente Lula tem uma visão diferente sobre a importância de um sistema de saúde estruturado para atender à população, sem fins lucrativos. E, por isso, defende novos investimentos para ampliar e fortalecer o SUS.