O que é a Guarda Revolucionária Iraniana, o corpo de elite e inimigo jurado de Israel?

Criada após a Revolução Islâmica para "defender seus feitos", a Guarda Revolucionária constitui atualmente um dos componentes-chave das Forças Armadas do Irã e sua influência se estende além da defesa do país persa.

A atual escalada no Oriente Médio começou na madrugada de quinta-feira, 13 de junho de 2025, com o bombardeio massivo de Israel contra o Irã, que tirou a vida de vários cientistas e altos militares do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), incluindo seu comandante em chefe, Hossein Salami, e o comandante da Força Aérea, o general de brigada Amir Ali Hajizadeh, entre outros oficiais de alto escalão.

Após a contundente resposta de Teerã com a operação "Promessa Verdadeira 3" e a ameaça do Corpo da Guarda de abrir "as portas do inferno" contra Israel, Tel Aviv seguiu assassinando membros da cúpula militar da Guarda Revolucionária, inclusive o chefe da Organização de Inteligência do corpo, Mohammad Kazemi. Enquanto isso, a guarda revolucionária respondeu com ondas de ataques aéreos e espaciais com mísseis hipersônicos.

Essa eliminação de altos comandantes da Guarda Revolucionária evidencia o papel central que essa organização de elite desempenha na defesa do Irã. E não apenas para a defesa: os IRGC são, em si, uma organização político-militar com influência significativa na formulação da política interna e externa do país persa, sendo o principal instrumento da liderança suprema iraniana para promoção e proteção dos interesses nacionais de Teerã na região do Oriente Médio.

Como foi criado o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC)?

Em 11 de fevereiro de 1979, a Revolução Islâmica, liderada pelo aiatolá Ruhollah Jomeini, triunfou no Irã ao derrubar o Xá Mohammad Reza Pahlavi, que contava com o apoio dos Estados Unidos. Em 1º de abril daquele mesmo ano, proclamava-se a República Islâmica do Irã.

Diante da impossibilidade de confiar num Exército nacional enfraquecido, que inclusive proclamou sua neutralidade durante a transição de poder, e da intensificação da oposição interna, os líderes revolucionários decidiram criar uma organização político-militar que unisse os estratos mais leais e religiosos da população com o objetivo de manter o poder nas mãos da liderança religiosa iraniana.

A decisão de unir os grupos políticos e suas unidades armadas leais ao novo governo foi tomada em 24 de fevereiro de 1979, e a criação oficial dos Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica foi anunciada em 22 de abril daquele ano.

Finalidades e estrutura do IRGC

O Conselho de Comando dos IRGC definiu, em 1979, as principais tarefas da nova organização:

Após o anúncio oficial de sua criação, teve início a formação ativa de unidades dos guardas da Revolução por todo o país. No começo da guerra entre Irã e Iraque, em setembro de 1980, a organização contava com cerca de 60 mil efetivos, e a liderança iraniana iniciou a transformação do corpo de uma força paramilitar para um componente central das Forças Armadas do país.

Em março de 1980, dentro da Guarda, foi criada a Força Quds, reorganizada em 1982 como Forças Especiais Quds. Em dezembro do mesmo ano, foi transferida ao IRGC, a partir do Ministério do Interior, a milícia Basij, criada em 1979 como organização pública paramilitar e conhecida por sua dedicação e lealdade na guerra contra o Iraque, utilizando táticas de "ondas humanas".

Por decreto do aiatolá Jomeini, em 17 de setembro de 1985, a Guarda Revolucionária se transformou em uma formação militar poderosa e num componente das Forças Armadas do Irã, com seus próprios ramos: Forças Terrestres, Força Aérea (desde 2012, Forças Aeroespaciais) e Força Naval.

As autoridades iranianas não divulgam oficialmente o número de integrantes da guarda, mas, segundo estimativas, sua força varia entre 190 mil e 400 mil membros.

Segundo o Artigo 110 da Constituição do Irã, o líder supremo é o único funcionário do Estado ao qual o Corpo da Guarda Revolucionária está subordinada, e apenas a ele os altos comandantes do corpo prestam contas. Isso faz da Guarda da Revolução o principal instrumento ideológico-militar da liderança política e religiosa suprema do país, atualmente ocupada pelo aiatolá Ali Khamenei.

Os membros do corpo da Guarda também participam ativamente de operações militares e políticas no Oriente Médio e supervisionam programas estratégicos para o Irã: o nuclear e o de mísseis. Parte importante do desenvolvimento militar do país está sob o controle do corpo.

Atualmente, a milícia Basij é a maior organização pública paramilitar do Irã, com unidades em quase todas as cidades, vilarejos e instituições públicas e governamentais do país. Em 2019, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou o Corpo da Guarda Revolucionária do Irã como "organização terrorista" e acusou a Basij de "recrutar, treinar e doutrinar crianças-soldado que são obrigadas a lutar sob a direção" do corpo militar.

Em resposta, Teerã declarou como terrorista o Comando Central do Departamento de Defesa dos Estados Unidos (CENTCOM) e suas forças afiliadas no Oriente Médio e na Ásia.

A Força Quds exerce influência significativa nas atividades diplomáticas iranianas no exterior, especialmente nas embaixadas do país no Oriente Médio, e apoia aliados do Irã na região.

Enquanto isso, o Serviço de Inteligência dos da Guarda Revolucionária considerado "um dos serviços de inteligência modernos mais eficazes" do Irã, tem peso nas esferas políticas e judiciais. Sua estrutura inclui numerosos centros dedicados à cibersegurança.

A Guarda na estrutura das Forças Armadas do Irã

Hoje, os membros do corpo da Guarda desempenham papel-chave na estrutura das Forças Armadas do Irã, as maiores do Oriente Médio em número de efetivos, aproximadamente 610 mil soldados. Além do IRGC, as Forças Armadas incluem o Exército e as Forças de Segurança do Estado.

Os três componentes estão subordinados ao órgão máximo de comando militar, o Estado-Maior das Forças Armadas da República Islâmica do Irã, que desde 2016 era dirigido pelo general de divisão do IRGC Mohammad Hossein Bagheri, assassinado no início da ofensiva israelense ao lado de outros altos comandantes militares e cientistas iranianos. Atualmente, o posto é ocupado por Amir Hatami, promovido ao posto de major-general por ordem do aiatolá Ali Khamenei.

Vale destacar que apenas representantes da Guarda são nomeados para os altos cargos no Ministério da Defesa e Apoio às Forças Armadas do Irã. A maioria dos vice-ministros da Defesa também costuma ser formada por membros do corpo revolucionário.

O Exército iraniano (Forças Terrestres, Força Aérea, Marinha e Defesa Aérea), conforme o Artigo 143 da Constituição, é responsável por proteger a independência, a integridade territorial e o sistema republicano islâmico do país.

Já o corpo da Guarda defende a Revolução Islâmica e seus feitos, segundo o Artigo 150 da Constituição nacional e o Estatuto do corpo.

Os membros da Guarda são liderados por um comandante em chefe, assessorado por um Conselho Supremo, o Escritório de Adjuntos e o Quartel-General Conjunto do corpo. O atual chefe da Guarda, major-general Mohammad Pakpour, foi nomeado neste mês de junho para substituir o assassinado Hossein Salami.

Outros papéis na sociedade iraniana

Especialistas apontam que o corpo da Guarda, criado como uma estrutura militar-religiosa de elite para proteger o novo sistema estatal e suas instituições contra ameaças internas e externas, tornou-se "um gigante que absorveu inúmeras áreas de atividade e quase toda a infraestrutura do país, incluindo seus principais e mais rentáveis projetos, simbolizando os feitos tecnológicos do Irã atual".

Há quem considere que essa organização se transformou num "Estado dentro do Estado", por concentrar grande parte das infraestruturas do Irã: portos fluviais e marítimos, aeroportos, empresas de setores vitais para o desenvolvimento do país, além de conduzir projetos prioritários, como os programas nuclear e de mísseis, entre outros.

O segmento ideológico da Guarda Revolucionária abrange agências de notícias como Tasnim, Fars, Akhbar-e Daneshdzhu, Nasim, o jornal Javan e diversos portais digitais.

Na esfera econômica, a Guarda está representados pela organização Khatam al Ambiya, um dos maiores consórcios do país e principal empreiteira do Irã em projetos industriais e de desenvolvimento. Além disso, por meio da fundação Bonyad Taavon Sepah, o corpo revolucionário atua nos setores bancário e de serviços, em projetos de construção e na importação de bens e serviços estrangeiros.

Entenda a linha do tempo que revela como Irã e Israel passaram da diplomacia à confrontação militar em nosso artigo