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Discurso dos EUA na ONU sobre o Irã ecoa narrativa usada antes da guerra do Iraque

Declarações da embaixadora Dorothy Shea contrastam com relatórios da AIEA e reacendem temores de repetição da narrativa usada na guerra do Iraque.
Discurso dos EUA na ONU sobre o Irã ecoa narrativa usada antes da guerra do IraqueGettyimages.ru / Michael M. Santiago

Durante reunião do Conselho de Segurança da ONU na sexta-feira (20), a embaixadora dos Estados Unidos na organização, Dorothy Shea, afirmou que o Irã precisava ser impedido de desenvolver uma bomba nuclear.

A declaração vai de encontro às recentes afirmações do diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi, que negou haver indícios de que Teerã esteja buscando desenvolver armas nucleares. Também contraria declarações de Tulsi Gabbard, representante da inteligência dos Estados Unidos, que afirmou que tais iniciativas foram interrompidas em 2003 por ordem do aiatolá Khamenei.

A retórica de Washington lembra estratégias adotadas em outros momentos para justificar intervenções e mudanças de regime no Oriente Médio, como no caso do Iraque em 2002.

Os ataques israelenses e norte-americanos ocorreram dias depois de a AIEA informar que Teerã havia enriquecido urânio a 60% - número abaixo dos 90% exigidos para a fabricação de armamentos nucleares

Apesar da escalada, Grossi voltou a afirmar que a agência não possui provas de que o Irã esteja, de fato, construindo uma arma nuclear. Ele ressaltou que o enriquecimento de urânio, por si só, não é suficiente para configurar uma ameaça real

Iraque 2.0?

Durante seu discurso na ONU, Shea reiterou o apoio incondicional dos EUA a Israel e afirmou que Washington não poderia mais ignorar o que chamou de "ambições nucleares do Irã". Segundo a embaixadora, o país persa já teria todos os componentes técnicos necessários, restando apenas a autorização do líder supremo iraniano para avançar. 

Esse tipo de discurso resgata memórias da narrativa empregada pelo governo de George W. Bush em 2002, quando os EUA justificaram a invasão do Iraque sob a alegação, jamais confirmada, de que Bagdá possuía armas de destruição em massa.

Steve Bannon, ex-estrategista da Casa Branca, declarou ao jornalista Tucker Carlson que a nova ofensiva contra o Irã seria, na verdade, uma operação articulada pelo "estado profundo" dos EUA para promover uma mudança de regime em Teerã. 

"Estamos lidando com um sistema que segue sua própria política de segurança nacional... é essa a luta que enfrentamos hoje", afirmou Bannon durante participação no programa "War Room" na segunda-feira (16).

Carlson, por sua vez, declarou temer que os ataques de Trump possam resultar em consequências desastrosas: "Acredito que isso poderia marcar o fim do império americano", disse. 

O jornalista Steve Coll, em entrevista à NPR, também comparou o atual momento à guerra do Iraque. Ele destacou que, embora Israel defenda a ideia de ataques preventivos, seus objetivos permanecem pouco claros.

"Netanyahu falou abertamente sobre mudança de regime e chegou a convocar o povo iraniano a se levantar contra o governo, como George H.W. Bush fez em 1991 com o Iraque", lembrou Coll. "Não há sinais de uma invasão planejada, mas o discurso em torno da queda do regime iraniano persiste." 

Há também interpretações de que a "guerra não declarada" de Israel contra o Irã poderia estar ligada a questões internas, como a tentativa do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de se manter no poder – hipótese já levantada por figuras políticas dos EUA, incluindo o ex-presidente Bill Clinton.

Durante sua fala na ONU, Dorothy Shea cometeu um deslize ao atribuir inicialmente ao governo de Israel a responsabilidade pelo "caos e terror" no Oriente Médio, antes de se corrigir e colocar a culpa sobre o Irã. 

O jornalista Rick Sanchez e Chay Bowes, durante o programa The Sanchez Effect, classificaram a gafe como um "lapsus freudiano". Sanchez comentou: "Ela acabou dizendo a verdade em voz alta".