Brasil pode liderar mercado global com jazida de 'terras raras' em vulcão extinto de MG

Com potencial estimado em 10 bilhões de toneladas, área supera a China em volume e custo de mineração.

A cratera de um vulcão extinto há 120 milhões de anos no Sul de Minas Gerais abriga uma das maiores e mais acessíveis jazidas de "terras raras" do mundo.

Espalhada por uma área de 750 km², entre os municípios de Poços de Caldas, Caldas, Andradas (MG) e Águas da Prata (SP), a caldeira contém um tipo específico de argila rica em 17 elementos químicos essenciais para tecnologias limpas, como turbinas eólicas, carros elétricos, painéis solares, smartphones e mísseis teleguiados.

Apesar do nome, as "terras raras" não são escassas. O que as torna estratégicas é a dificuldade em separá-las de outros minerais. No entanto, as formações geológicas da caldeira mineira facilitam esse processo, pois os elementos estão concentrados em uma argila iônica a apenas 30 metros da superfície. Isso permite a extração com escavadeiras simples, sem uso de explosivos e com menor impacto ambiental.

Estudos iniciais feitos em apenas 15% da área identificaram 2 bilhões de toneladas de argila com íons de terras raras. A estimativa, considerando as áreas ainda não estudadas, aponta para um potencial de até 10 bilhões de toneladas, o suficiente para garantir ao Brasil duas décadas de produção contínua.

Dois projetos de mineração já estão em fase de licenciamento: o Projeto Caldeira, da Meteoric Resources, e o Projeto Colossus, da Viridis. Juntas, essas iniciativas preveem produzir até 7% da demanda global de carbonato misto de terras raras, a um custo estimado de 6 dólares por quilo, o mais baixo do mundo, segundo as empresas.

O destaque da caldeira brasileira está na composição da rocha alcalina, que ao longo de milhões de anos se transformou em argila iônica de alta concentração.

A região de Poços de Caldas (MG) tem argilas com 2,5 mil ppm de terras raras, acima da média global de 1,5 mil ppm, e um aproveitamento de 70%. O modelo de extração usa o sistema "backfill", que permite recuperação ambiental durante a mineração.

O processo envolve sulfato de amônia, e prefeituras solicitam estudos para avaliar riscos de contaminação. A atividade pode gerar até R$ 23 milhões por ano em impostos, sendo R$ 15 milhões para o orçamento municipal.

Exploração soberana

Além da extração, o desafio do Brasil é estruturar uma cadeia produtiva completa, como a que existe na China, que hoje domina 75% da mineração, 85% do refino e 95% da produção de ímãs de terras raras no mundo.

Para isso, foi criado em Lagoa Santa (MG) o laboratório CIT SENAI ITR, que visa desenvolver ímãs com tecnologia nacional, utilizando o próprio minério brasileiro como matéria-prima.