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'América em primeiro lugar'? Intervenção dos EUA contra Irã divide base de Trump

Líderes conservadores e ex-assessores sinalizam pressão interna em meio ao debate sobre intervenção no conflito entre Israel e Irã, enquanto Trump mantém postura ambígua.
'América em primeiro lugar'? Intervenção dos EUA contra Irã divide base de TrumpGettyimages.ru / Mark Makela

A possibilidade de que os Estados Unidos participem diretamente do conflito entre Israel e Irã tem causado divergências dentro do movimento "Make America Great Again" (MAGA), Faça a América Grande Novamente em português, base política do presidente Donald Trump.

A tensão foi revelada por uma reportagem do jornal The Washington Post, que ouviu fontes do alto escalão político e militar dos Estados Unidos.

Segundo o jornal, há um crescente desconforto entre aliados de Trump com a hipótese de que o país autorize ataques a instalações nucleares iranianas. Um ex-alto funcionário do Pentágono, sob condição de anonimato, declarou que "este é um ponto de inflexão para o que podemos chamar de movimento 'Estados Unidos Primeiro'".

Embora o presidente Donald Trump tenha reiterado que seu objetivo é impedir que o Irã desenvolva armas nucleares, ele também tem criticado, de forma recorrente, o envolvimento prolongado dos Estados Unidos em conflitos externos. Esse discurso contribuiu para consolidar uma coalizão de eleitores contrários à aplicação de recursos norte-americanos em guerras internacionais.

Entre os apoiadores mais expressivos de Trump, como Steve Bannon, cresce o receio de que o apoio a Israel em uma eventual ofensiva contra o Irã ultrapasse os limites do que seria aceitável.

"Neste momento, posso garantir que o presidente Trump está sob enorme pressão", afirmou Bannon ao Washington Post.

A vice-presidência também reconhece a existência de divergências internas. Em uma publicação nas redes sociais, o vice-presidente JD Vance declarou que há preocupação legítima entre eleitores do movimento MAGA quanto a novos compromissos militares.

Segundo ele, "as pessoas têm razão ao se preocupar com novos envolvimentos no exterior após 25 anos de política externa equivocada".

Durante participação no programa "War Room", apresentado por Steve Bannon, o jornalista Tucker Carlson afirmou que um confronto militar com o Irã poderia encerrar a presidência de Trump.

"Uma guerra em larga escala com o Irã encerraria, acredito eu, a presidência de Trump, efetivamente a encerraria", declarou.

Carlson criticou figuras da Fox News que estariam pressionando o presidente a adotar uma postura intervencionista, e defendeu que os Estados Unidos não devem comprometer sua segurança nacional em nome dos interesses israelenses. "Estamos nos momentos finais de conseguir recuar, e logo não haverá como voltar atrás", alertou.

Apesar das críticas, Trump ainda conta com o apoio majoritário de seus eleitores, segundo o Washington Post. No entanto, a manutenção desse apoio pode depender da condução dos próximos passos no Oriente Médio.

O jornal aponta que uma negociação bem-sucedida poderia reforçar a imagem de Trump como um líder disposto ao diálogo. Por outro lado, uma escalada militar pode gerar frustração entre parte da base.

"Não foi eleito" para isso

Parlamentares como Rand Paul e Marjorie Taylor Greene expressaram publicamente sua oposição à ideia de um novo conflito. "Trump não foi eleito para ser um presidente em guerra", declarou Greene. Já Paul afirmou que "a diplomacia vem da contenção", e que espera que Trump não leve o país a uma guerra.

Do lado oposto, figuras do Partido Republicano, como os senadores Lindsey Graham e Tom Cotton, têm defendido uma atuação mais assertiva dos Estados Unidos ao lado de Israel. Graham chegou a sugerir que o governo forneça aviões e bombas ao Estado israelense para "derrubar o regime" do Irã.

Durante seu primeiro mandato, o presidente autorizou o envio de tropas ao Afeganistão e ações contra o Estado Islâmico na Síria e no Iraque. Em janeiro de 2020, Trump ordenou um ataque com drones que resultou na morte do general iraniano Qassem Soleimani, provocando retaliação por parte de Teerã contra tropas norte-americanas no Iraque.

Dessa vez, analistas citados pelo Washington Post afirmam que um eventual ataque a instalações nucleares do Irã teria consequências muito mais amplas, dada a importância estratégica desses locais para o governo iraniano.

A reportagem também registra que há uma crescente frustração com Israel dentro do movimento MAGA, embora muitos relutem em manifestar publicamente essa insatisfação, com receio de serem acusados de antissemitismo.

Pesquisas citadas pelo jornal mostram que, embora a maioria dos republicanos seja favorável ao uso da força militar contra o Irã em certas circunstâncias, uma parcela significativa, entre 25% e 30%, é contrária a qualquer ação militar.

Em 2019, levantamento do instituto Gallup apontou que 72% dos republicanos preferiam soluções econômicas e diplomáticas para conter o programa nuclear iraniano.

Questionado por jornalistas sobre uma possível adesão dos Estados Unidos aos ataques israelenses, Trump respondeu com ironia:

"Vocês acham mesmo que vou responder essa pergunta? 'Vai atacar o componente nuclear iraniano e a que horas exatamente, senhor? Poderia nos informar para que possamos ir lá e assistir?' Posso fazer isso. Posso não fazer. Quero dizer, ninguém sabe o que vou fazer".

O Irã, por sua vez, tem afirmado que seu programa nuclear é exclusivamente pacífico.