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'Lula desafia influência dos EUA no Caribe', afirma secretário da ALBA em entrevista à RT

Giovani del Prete aponta que diálogo com o Caribe marca nova etapa da política externa e contrasta com agenda de controle dos EUA.
'Lula desafia influência dos EUA no Caribe', afirma secretário da ALBA em entrevista à RTRT

Nesta sexta-feira (13), Brasília recebeu um encontro que reuniu o Brasil e os países da Comunidade do Caribe (CARICOM), além de Cuba e República Dominicana.

Com o lema "Aproximar para Unir", o encontro marca um novo momento na política externa brasileira e reforça a aposta do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na integração regional como estratégia geopolítica.

Em entrevista exclusiva à RT, Giovani del Prete, secretário continental da ALBA Movimentos (Aliança Bolivariana dos Povos da Nossa América), analisou o significado político da decisão do presidente Lula de priorizar o encontro com os líderes caribenhos em vez de comparecer à Cúpula do G7.

Interesses econômicos e enfrentamento geopolítico

"Há uma importância direta, se pudermos destacar inicialmente as questões econômicas", afirmou Del Prete. Ele ressaltou que os países do Caribe, incluindo Cuba e República Dominicana, somam cerca de 45 milhões de pessoas e movimentam um Produto Interno Bruto (PIB) combinado de aproximadamente 250 bilhões de dólares, com um fluxo comercial com o Brasil na casa dos 4 bilhões de dólares.

Del Prete afirma que a decisão do Brasil de fortalecer o diálogo com os países caribenhos representa um movimento claro de enfrentamento à hegemonia dos Estados Unidos na região.

"O Caribe é, historicamente, uma influência dos Estados Unidos. Tem uma agenda muito forte [...] para sustentar uma agenda de controle e segurança", afirmou.

Segundo ele, ao promover uma agenda de integração baseada na solidariedade e na cooperação, o governo Lula envia um recado político que contrasta diretamente com os objetivos de Washington. "O Brasil, quando se coloca nessa agenda, também está, de certa forma, confrontando os interesses dos Estados Unidos na região e se propõe a estar em outras estruturas", completou.

O peso da história no Haiti

Del Prete também apontou que a retomada das relações com o Caribe oferece ao Brasil a oportunidade de enfrentar uma agenda histórica de reparações. Ele destacou o legado da Minustah, missão da ONU liderada por militares brasileiros no Haiti, que deixou profundas marcas sociais no país.

"O Brasil tem uma responsabilidade muito importante com relação à questão da Minustah", afirmou. "Mais de 10 mil haitianos foram mortos por essa tragédia e mais de 800 mil foram contaminados", disse, referindo-se à epidemia de cólera associada à missão. Segundo Del Prete, "também há outras questões, como o estupro de mulheres [...] e até órfãos, filhos de soldados brasileiros".

Para ele, o governo Lula deveria aproveitar o atual momento diplomático para "levar adiante uma agenda de direitos humanos" e implementar políticas de reparação e reconhecimento das vítimas da missão.

Brasil como mediador em tempos de instabilidade

Ao optar por priorizar o diálogo com os vizinhos caribenhos em vez de se juntar ao seleto grupo de potências do G7, Lula envia uma mensagem política: o Brasil busca se firmar como mediador e articulador de um novo modelo de cooperação regional, analisa o articulador político.

Segundo Del Prete, o país pode desempenhar um papel de "respeito e solidariedade" em um cenário internacional marcado pelo "declínio dos Estados Unidos" e pela crescente violência promovida por alianças como a OTAN.

"Acho que é aí que joga, são esses os interesses que estão enquadrados", afirmou. "O Brasil tem muitas condições de impulsionar uma agenda forte de integração em um esquema internacional de muito mais violência".

Para Del Prete, a cúpula em Brasília sinaliza mais do que uma reaproximação geográfica: representa uma escolha política com potencial de reconfigurar os alinhamentos regionais no Caribe e na América Latina.