
IA revela segredos do texto da Bíblia

Um novo estudo descobriu padrões ocultos na Bíblia hebraica que mudam algumas percepções convencionais sobre o livro sagrado do judaísmo e do cristianismo.
Um grupo internacional de pesquisadores utilizou inteligência artificial para abordar uma das questões que mais intrigam os especialistas: a autoria dos textos do Antigo Testamento, objeto de redações e reescritas em diversos períodos da história. Analisando as variações no uso de palavras e a forma como são sequenciadas, a equipe, que inclui arqueólogos, biblistas, físicos, matemáticos e especialistas em TI dos Estados Unidos, Israel e França, distinguiu as três tradições de escrita nos nove primeiros textos da Bíblia hebraica.
Assim, ao comparar Deuteronômio, a chamada História Deuteronomista de Josué aos Reis e os escritos sacerdotais da Torá, os pesquisadores confirmaram uma maior proximidade entre os dois primeiros estilos, algo que já era consenso entre os biblistas.

"Descobrimos que cada grupo de autores tem um estilo diferente, surpreendentemente, até mesmo em relação a palavras simples e comuns como 'não', 'qual' ou 'rei'. Nosso método identifica com precisão essas diferenças", explicou Thomas Römer, biblista do Collège de France e um dos autores do artigo, publicado na PLOS One.
Revelações fornecidas pela IA
Em seguida, utilizando um modelo estatístico baseado em IA, os cientistas determinaram a autoria mais provável e a cronologia de algumas partes bíblicas que foram objeto de discussões.
A equipe concentrou-se na Narrativa da Arca, que se refere ao cofre de ouro conhecido como a Arca da Aliança, construída, segundo a Bíblia, pelos israelitas logo após fugirem do Egito e que continha as duas tábuas de pedra dos Dez Mandamentos.
Embora às vezes as duas seções dos Livros de Samuel que tratam desse tema sejam consideradas partes de uma única narrativa, os pesquisadores determinaram que o texto do Primeiro Livro de Samuel não se alinha com nenhum dos três estilos, enquanto que o capítulo correspondente ao Segundo Livro de Samuel mostra afinidade com a História Deuteronomista.
"Nosso artigo traz nova luz sobre a questão da autoria dos textos bíblicos ao oferecer provas interpretáveis e estatisticamente significativas da existência de características linguísticas na escrita dos autores/redatores bíblicos, que podem ser identificadas automaticamente", afirmam os autores.
O grupo agora estuda a possibilidade de utilizar a mesma metodologia para fazer descobertas sobre outros textos antigos, como os Manuscritos do Mar Morto, milhares de fragmentos de mais de 900 manuscritos com dois milênios de antiguidade, entre os quais estão cópias de textos da Bíblia hebraica, descobertos em meados do século XX em 11 cavernas.
