
Brasileiros cruzam o mundo para homenagear os 80 anos da vitória da Rússia sobre o nazismo

Cruzar o oceano para estar presente em um momento histórico não foi um gesto turístico. Foi um ato de memória.
Cem brasileiros embarcaram para a Rússia em maio de 2025 com um único propósito: integrar o calendário oficial das comemorações pelos 80 anos da Vitória Soviética na Grande Guerra Patriótica (1941–1945).
Vindos de diferentes regiões do Brasil, enfrentaram atrasos, conexões perdidas e incertezas políticas, movidos pela convicção de prestar uma homenagem aos povos que combateram o nazismo.

A caravana, formada em sua maioria por pessoas acima dos 60 anos, reuniu professores universitários, sindicalistas, engenheiros, jornalistas, médicos, psicólogos, historiadores, ex-alunos da URSS e representantes de movimentos sociais.
"Devido ao espectro ideológico do grupo, que é de esquerda, percebi que conhecer a Rússia era um antigo sonho da maioria", contou Ricardo Rausse, engenheiro civil de Santo André (SP) e um dos idealizadores da viagem com exclusividade à RT Brasil.
"Muitos se sacrificaram para realizar esse sonho e para prestar sua solidariedade num momento difícil, onde o nazismo das elites ocidentais se levanta mais uma vez contra a Rússia".

A jornada teve início a partir de um gesto simbólico. Rausse pintou bandeiras da Vitória e as distribuiu a canais da mídia alternativa brasileira. Uma dessas bandeiras chegou ao professor e sociólogo Lejeune Mirhan, que propôs: e se fosse organizada uma caravana para o Dia da Vitória, em Moscou?
"A ideia da viagem para a Rússia surgiu num simples telefonema exatamente no dia 25 de janeiro, quando liguei para Ricardo falando que no dia 9 de maio nós teríamos 80 anos do Dia da Vitória", disse Mirhan.
Com a adesão do comandante reformado da Marinha Robinson Farinazzo e da engenheira civil Martha Simas, o grupo procurou a agência especializada Tchaika e começou a divulgação, que aconteceu principalmente pela TV 247 e pelo canal "Arte da Guerra". A resposta surpreendeu. "Para nossa grata surpresa, 100 brasileiros aderiram", relatou Mirhan.

"A minha expectativa era que seria sensacional. E foi além das expectativas. Visitar a Rússia é realmente algo único, singular, espetacular. Eu recomendo", afirmou Martha Simas.
Pessoas embarcaram de várias regiões do Brasil e da Europa. A travessia até a Rússia, contudo, não foi simples. "Quando chegamos em Dubai, nosso voo de conexão foi cancelado pelo fechamento do espaço aéreo russo devido aos ataques de drones e o grupo se fragmentou em função das possibilidades de embarque da Emirates", narrou Rausse. Alguns só chegaram a Moscou três dias depois.
O roteiro, seguido à risca, iniciou-se em Moscou no dia 7 de maio. Visitaram locais como a Praça Vermelha, o Kremlin, o Bunker de Stalin, o Parque da Vitória, o Monumento dos Defensores de Moscou, Volokolamsk e o Parque Patriot.
No dia 13, partiram para São Petersburgo de trem Sapsan, onde conheceram o Cemitério de Piskarevskoye, o Museu do Cerco de Leningrado, a Fortaleza de Pedro e Paulo, o Hermitage, o Museu Dostoiévski, a Rota "Caminho da Vida" e o Museu da Cosmonáutica.

"Visitamos o Museu da Guerra Patriótica, fantástico, emocionante. Moscou é uma cidade vibrante, cheia de construção e muito trânsito, o que mostra seu dinamismo. São Petersburgo também foi excelente, cheia de energia, história e movimento. É simplesmente sensacional. E foi pouco tempo. A ideia é realmente voltar, porque a Rússia é única", contou Simas.
Um dos pontos mais marcantes foi a participação do grupo no Regimento Imortal, no dia 9 de maio. Criado formalmente em 2011, o movimento leva às ruas um desfile de cidadãos com retratos de parentes que lutaram ou sofreram com a guerra.
"A história da guerra com personagens com rosto e nome. Homenagens aos que tombaram e são pouco vistos no Ocidente", descreveu a professora Alice Itani. "O Monumento dos 28 Soldados, as placas com os nomes dos 500 mil, o do diário de Tania Zabich perto do Caminho da Vida foram os pontos altos da viagem".
As impressões do grupo se ampliaram ao longo dos dias. Gilberto Rodrigues, professor da UFOPA, observou: "Autonomia feminina me chamou a atenção. Constatei dezenas de mulheres dirigindo seus próprios carros, ônibus e VLTs. Quase nenhuma criança usa celular. Baixo número de obesos. Fora a sensação de segurança ao se deslocar pelas calçadas".
Mas o professor também relatou falhas: "Reparei no excesso de seguranças nos metrôs e museus e na baixa sinalização em línguas latinas ou inglês nos pontos de concentração de turistas".
Robinson Farinazzo, que mantém um canal com mais de meio milhão de inscritos pra falar sobre o contexto das guerras, comentou: "A Rússia é um país independente do sistema imperialista, ela afirma seu lugar no mundo. Os brasileiros precisam conhecer a Rússia. Precisam se desfazer dessas lendas idiotas que existem a respeito do país".
Lejeune Mirhan, que coordenou a comitiva, resumiu a motivação em termos pessoais: "Eu fui à Rússia prestar um tributo àquele povo. Aos quase 30 milhões de soviéticos que lutaram contra o nazifascismo. Essa era a identidade daquele povo das 15 repúblicas. Que lutaram. E venceram".
O simbolismo da marcha em Moscou se materializou em diversos gestos. Rausse contou uma experiência em Kubinka: "Ao descer do trem eu me dirigi para um táxi... O senhor da foto, que era o motorista, ao perceber que éramos brasileiros, me disse: 'eu vou lhes levar sem cobrar nada'. Perguntei a razão e ele respondeu: 'porque esta é a alma russa'".
Ao final da jornada, os 100 brasileiros regressaram com o sentimento de missão cumprida. "A sensação que fica é que nem a língua impediu a vontade dos russos e brasileiros de se conhecerem... Foi fantástico", disse Rausse.
As imagens captadas durante a viagem registram homenagens, encontros e memória. De mãos dadas com a história, os brasileiros caminharam ao lado de veteranos, civis, jovens e crianças russas em uma celebração internacional contra o esquecimento.



