Do interior da Rússia para o Nobel: a história do escritor Mikhail Sholokhov

Você talvez nunca tenha ouvido falar de Mikhail Alexandrovich Sholokhov, mas ele foi um dos escritores mais lidos do século XX.
Suas obras ultrapassaram 105 milhões de cópias em mais de 1.400 edições traduzidas para mais de 90 idiomas. Seu maior sucesso, o épico "O Don Silencioso", virou filme três vezes e foi responsável por levá-lo ao Prêmio Nobel de Literatura em 1965.
Infância, guerra e literatura
Sholokhov nasceu em 1905, numa região rural da Rússia, cercado por fazendas, moinhos e trigo. Desde cedo, viveu de perto os choques sociais que marcaram o século. Fruto de uma família de comerciantes e mãe camponesa, aos 15 anos já dava aulas a analfabetos quando viu a Guerra Civil se alastrar até os territórios do Rio Don, onde vivia.
Sholokhov viu-se então forçado a abandonar os seus estudos secundários, e prontamente se enfileirou no contingente bolchevique. Trabalhava no Comitê Revolucionário e, mais tarde, no Prodotryad, onde quase foi morto pelos makhnovistas.
Em 1922, partiu para Moscou com o sonho de viver da escrita. Viveu na pobreza, fez bicos como carregador e escreveu seus primeiros textos satíricos. Casou-se com Maria Gromoslavskaya, filha de um ex-líder cossaco, um encontro que mudaria o rumo de sua literatura.

O nascimento de um clássico
Foi dessa vivência que nasceu "O Don Silencioso", um romance épico sobre a vida dos cossacos no turbilhão da Revolução e da Guerra Civil. Sholokhov levou mais de dez anos para concluir a obra, finalizada em 1940. O livro foi um sucesso estrondoso, aclamado tanto na União Soviética quanto no exterior.

Depois veio "Terra e Sangue", romance sobre a coletivização no Don, além de contos e novelas que o consolidaram como cronista dos grandes dramas russos. Durante a Segunda Guerra, atuou como correspondente de guerra nos jornais Pravda e Krasnaya Zvezda e doou prêmios à defesa do país e à construção de escolas através do Fundo de Defesa da URSS.
Reconhecimento e legado
Sholokhov acumulou as mais altas honrarias soviéticas, incluindo a Ordem de Lenin e o título de Herói do Trabalho Socialista.
Entre suas obras mais conhecidas estão "Eles lutaram pela Pátria", "O destino de um homem" e "Histórias de Don", retratos comoventes do sofrimento e da resistência durante tempos extremos.
Jean-Paul Sartre, ao recusar o Nobel em 1964, chegou a lamentar que Sholokhov ainda não tivesse sido premiado - o que aconteceu no ano seguinte, com a Academia reconhecendo sua integridade artística e a força de sua narrativa épica.
Em 1965, Mikhail Alexandrovich recebeu o Prêmio Nobel de Literatura por seu "poder artístico e integridade de seu épico sobre os cossacos do Don em um momento crucial para a Rússia" e, dois anos depois, recebeu a segunda Medalha de Ouro "Foice e Martelo".
Últimos dias e homenagem eterna
Sholokhov morreu em 1984 e foi enterrado no quintal de sua casa, na vila de Vyoshenskaya, às margens do Don, cenário das histórias que o imortalizaram. Em 1986, um monumento foi erguido sobre o túmulo. Sua esposa, Maria, faleceu em 1992 e repousa ao lado dele, sob um monumento que lembra a grandiosidade de sua trajetória.
Hoje, Mikhail Sholokhov pode ser pouco conhecido fora da Rússia, mas seu legado literário permanece como uma das vozes mais fortes a narrar os traumas, as aflições e esperanças da história russa no século XX.

