Sebastião Salgado: o fotógrafo que sobreviveu à guerra, denunciou o mundo e semeou florestas

Economista exilado e salvo por Pelé em Ruanda, ele retratou a dor humana e plantou 2,5 milhões de árvores

Em Aimorés, interior de Minas Gerais, nasceu em 1944 aquele que se tornaria um dos maiores brasileiros de todos os tempos.

Sebastião Salgado se formou em Economia, viveu o exílio durante a ditadura militar e, aos 29 anos, trocou os relatórios pela fotografia.

Com a lente apontada para o mundo, ele documentou a dor, a miséria, o trabalho e a vida, sempre guiado por um impulso social e humano.

Foi longe. Atravessou guerras, crises, campos de refugiados e desertos. Viu o que muitos não aguentariam ver. Ao documentar a vida de quem pouco aparecia, Salgado se deparou com situações extremas e não se deixou abater. Seguiu em frente e revelou ao mundo realidades desconhecidas para a grande maioria.

O homem que enxergou o mundo com uma câmera e devolveu à Terra a vida que viu faltar

Durante a cobertura do genocídio de Ruanda, em 1994, foi detido por milicianos tutsis. "Sou brasileiro, do país do Pelé", disse, quando pensaram que fosse francês. O nome do jogador o salvou.

Antes disso, já havia fotografado a fome no Sahel, nos anos 1980. Chorou. "Larguei a câmera e chorei junto", admitiu. Deixou o deserto marcado por imagens brutais e por uma cicatriz emocional que o acompanharia por anos.

Em 1991, testemunhou outro cenário apocalíptico: os incêndios nos poços de petróleo do Kuwait, deixados pelas tropas de Saddam Hussein. "Kuwait: Um Deserto em Chamas" reúne as imagens desse desastre não-natural.

Seu trabalho sempre foi além da estética. Fotografava para denunciar. Como no livro "Trabalhadores", em que revelou a força e a exploração da mão de obra global. Era um olhar afinado com a política e com o sofrimento.

Na ditadura militar brasileira, exilou-se em Paris com Lélia, sua companheira de vida e de criação. Lá, trabalhou na Organização Internacional do Café. Mas logo decidiu trocar a economia pela fotografia. Deixou o ofício, pegou a câmera e passou a registrar o cotidiano de trabalhadores, populações marginalizadas e regiões em crise. Documentou a luz, a lama, o fogo e a verdade.

Sebastião Salgado fotografou o mundo e, quando o mundo o feriu demais, voltou para casa. Em Aimorés, com Lélia, fundou o Instituto Terra. Um projeto de restauração ambiental que replantou mais de 2,5 milhões de árvores.

Mesmo reconhecido internacionalmente, membro da Academia de Belas Artes da França e vencedor do Prêmio Príncipe de Astúrias, foi na terra que pisou quando criança que Salgado plantou o seu legado.

Com sua câmera, deu rosto às crises esquecidas. Com sua vida, provou que é possível resistir.