O banco espanhol Santander, um dos cinco maiores da União Europeia em ativos, destinou em 2024 mais de US$ 600 milhões em financiamentos a empresas envolvidas com cadeias produtivas associadas ao desmatamento, de acordo com relatório divulgado nesta semana pela organização internacional Global Witness.
A investigação aponta que parte desse montante teria financiado atividades na região do Gran Chaco, bioma que se estende por Argentina, Brasil, Paraguai e Bolívia, considerado um dos maiores ecossistemas da América do Sul e abrigo para milhões de indígenas e centenas de espécies.
Segundo o relatório, o Santander tem atuado como um dos principais financiadores da empresa argentina Cresud, que, por meio da subsidiária brasileira BrasilAgro, da qual detém 34,2% de participação, tem ampliado sua atuação no Gran Chaco. "A empresa [Cresud] desmatou mais de 170 mil hectares na América do Sul desde o início do século, uma área mais de três vezes maior que Madri", afirmou a Global Witness.
Ainda de acordo com a organização, o Santander "coorganizou" com outros bancos nacionais e internacionais um total de US$ 1,3 bilhão em financiamentos para a Cresud desde 2011. "Desde a publicação de sua política de limitação ao desmatamento em 2018, o banco já subscreveu US$ 850 milhões em dívidas da empresa", destacou o relatório.
O modelo de negócios investigado consistiria na aquisição de grandes áreas de terra no Gran Chaco, posterior desmatamento e revenda para a agropecuária, prática descrita como um "modelo imobiliário" pela Global Witness.
Consultado pela organização, o Santander declarou que sua prática "é não comentar informações relacionadas a clientes ou transações específicas". Em nota, um porta-voz do banco afirmou que as alegações "contêm imprecisões e possíveis informações incorretas sobre nossas políticas", mas não apresentou provas.
Gran Chaco
Vivem no território cerca de 5,6 milhões de indígenas, o qual abrange também a região do Pantanal. A expansão de atividades agropecuárias tem causado impactos diretos à biodiversidade e ao modo de vida das comunidades. "Estamos testemunhando um ecocídio. Isso precisa parar agora, porque senão não restará mais nada", afirmou Sergio Rojas, membro do povo Qom, da Argentina.
Dados citados pela Global Witness mostram que o banco esteve envolvido na emissão de 35 dos 47 títulos da Cresud desde 2002, sendo co-líder em mais de 90% do valor total.
Risco a cultura nativa
Além dos danos ambientais, a perda de território ameaça línguas e tradições. "A expansão da indústria madeireira significa não apenas o saque de recursos, mas também de nossas línguas", disse um líder indígena Wichí da província de Formosa, em anonimato.
Segundo Giardini e Charlie Hammans, autor do relatório da Global Witness, empresas como a Cresud operam dentro da legalidade, mas a fragilidade das leis ambientais permite a continuidade dessas práticas. "O sistema está fundamentalmente quebrado. Para ver mudanças reais, precisamos de regulamentações reais", afirmou Hammans.