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Do 13 de maio aos dias atuais: os desafios persistentes da população negra no Brasil

Sem políticas de reparação, o fim da escravidão deixou milhões de pessoas negras à margem da sociedade.
Do 13 de maio aos dias atuais: os desafios persistentes da população negra no BrasilGettyimages.ru / Sebastian Kahnert/picture alliance

No dia 13 de maio de 1888, a assinatura da Lei Áurea encerrou formalmente o sistema escravocrata no Brasil. 137 anos depois, a data continua cercada por debates e disputas sobre sua real importância para a população negra.

Sem políticas públicas de reparação histórica, os impactos da escravidão ainda são sentidos em diversas dimensões da sociedade, do acesso à terra ao mercado de trabalho, da violência policial à marginalização cultural. A ausência de mudanças estruturais após a abolição é um dos principais pontos destacados por lideranças e movimentos negros.

Para Claudia Higino, integrante do Movimento Quilombo Saracura, o 13 de maio não representa, por si só, uma libertação real. "A grande pergunta é, e agora, no dia 14, quem somos nós? E no dia 14 de maio, a gente tem acesso ao quê? O que mudou pra gente?", questionou.

Claudia sustentou que o 13 de maio é uma data criada dentro de uma lógica da branquitude, que não representa as lutas e conquistas reais da população negra. Ela defendeu que a construção simbólica em torno da data ainda precisa ser disputada: "É importante falar que o 13 de maio é só um dia, uma data que foi criada dentro de uma concepção chamada branquitude, que também não nos representa".

No bairro do Bixiga, em São Paulo, essa disputa pela memória se materializa por meio de rituais e ações organizadas por coletivos negros. Um exemplo é a lavagem da escadaria do Bixiga, realizada há anos com alfazema e água de lavanda. A prática foi retomada pelo coletivo Ilú Obá De Min, formado por mulheres negras percussionistas e bailarinas, e carrega um forte simbolismo de limpeza espiritual e resistência cultural.

"O 13 de maio talvez seja um dos poucos lugares que a gente ainda tem como um grito negro e permanentemente negro", afirmou Claudia. Para ela, a data pode ser resignificada a partir das práticas e narrativas dos próprios movimentos negros, desde que não seja apropriada ou embranquecida.

Além do ato simbólico, o Movimento Quilombo Saracura busca transformar o território por meio de ações culturais, políticas e comunitárias. A luta pela preservação do Quilombo do Saracura e pela valorização da memória negra no centro de São Paulo está inserida em uma disputa mais ampla por reconhecimento, reparação e protagonismo.

"O tanto que a gente precisa lutar, principalmente dentro de uma política liberal, que não condiz com a nossa realidade progressista de pensar e de atuar no território", afirmou Claudia.

Ela ressalta a importância de tratar o 13 de maio como ponto de partida para pensar o futuro e a permanência das comunidades negras em seus territórios. A crítica à ausência de políticas públicas que reparem os danos da escravidão é recorrente nos discursos de lideranças negras. O fim da escravidão no Brasil não foi acompanhado por nenhum tipo de compensação econômica, educacional ou territorial.

Ex-escravizados foram deixados à própria sorte, enquanto seus antigos senhores foram indenizados pelo Estado pela "perda de propriedade".  Diante disso, movimentos negros seguem reivindicando ações concretas de reparação, como demarcação de territórios quilombolas, acesso à moradia, educação antirracista e cotas raciais.

A luta também passa pela disputa simbólica e histórica sobre o que o 13 de maio representa e para quem ele serve. 137 anos depois da assinatura da Lei Áurea, a pergunta permanece: o que mudou no dia seguinte? Para muitos, a resposta ainda é: quase nada.