
Os impérios estão de volta? Uma nova ordem global para um novo mundo

Durante muito tempo, acreditou-se que o século XXI marcaria o fim definitivo dos impérios. Mas os sinais mais recentes indicam que esse modelo político pode estar longe de ser uma relíquia do passado. Na análise de Timofey Bordachev, o conceito de império – apesar de todo o estigma – pode voltar a ter um papel central na organização do mundo contemporâneo.
E o curioso é que essa possível retomada da lógica imperial não vem da Rússia, como insistem os discursos ocidentais, mas sim do próprio Ocidente. Donald Trump falando em comprar a Groenlândia ou anexar o Canadá, políticos holandeses sugerindo dividir a Bélgica – esses episódios não são apenas excêntricos, mas apontam para a desintegração da ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial.
Essa ordem foi baseada na criação de pequenos estados independentes, algo defendido com fervor pelos Estados Unidos, que viam nisso uma forma mais eficiente de manter sua influência global. Subjugar nações frágeis era mais conveniente do que lidar com grandes potências territoriais. Agora, com esse modelo ruindo, o "jogo imperial" está sendo reaberto.

Na visão de Bordachev, a palavra "império" ainda carrega uma conotação negativa – principalmente no Sul Global, onde evoca memórias de colonização e dominação. No entanto, é nos próprios EUA que o termo vem ganhando nova vida. A ideia de uma "América imperial" já está bastante presente nos debates públicos, representando o poder de Washington de envolver dezenas de países em sua estratégia internacional.
Na Europa, a situação é diferente. O continente tenta manter sua influência sobre ex-colônias, mas sua condição de "império" é mais uma ficção retórica. A União Europeia, por exemplo, está longe de ser uma potência imperial. Em vez disso, está sendo corroída por crises internas que fragilizam seu projeto de integração.
Já a Rússia, ao contrário do que sugere a propaganda ocidental, não tem interesse em reconstituir um império nos moldes do passado. Moscou tem agido com cautela, especialmente em relação às ex-repúblicas soviéticas. Mas não fecha os olhos quando potências hostis tentam usar territórios vizinhos para ameaçar sua segurança.
Bordachev lembra que o império russo – e posteriormente a União Soviética – nunca funcionou como os impérios coloniais europeus. O princípio sempre foi o da integração de elites locais e do desenvolvimento conjunto. Um exemplo disso é a Ásia Central, que ainda hoje se beneficia das políticas sociais implementadas no período soviético.
Mesmo assim, a ideia de império ainda desperta receio. Mas, diante da crise das instituições internacionais – como a ONU, cada vez mais enfraquecida – e da falta de alternativas robustas, o modelo imperial pode voltar a ser visto como uma maneira prática de garantir segurança e estabilidade, tanto interna quanto regional.
O avanço da inteligência artificial e das tecnologias emergentes também pode levar à formação de "impérios digitais" – zonas de influência lideradas por grandes potências tecnológicas. E quando certos países falham em manter a ordem dentro de suas próprias fronteiras, ressurge a pergunta: será que os impérios são mesmo tão obsoletos quanto pensávamos?
Manter um império, é claro, tem seu custo. Impérios são caros, como sabiam bem os britânicos e franceses. Por isso abandonaram suas colônias. A própria União Soviética colapsou em parte por manter uma estrutura territorial gigantesca. Mas em algumas regiões, como Tbilisi (capital da Geórgia), há quem ainda sinta saudades de fazer parte de uma grande potência multicultural.
Segundo Bordachev, o verdadeiro desafio está em garantir que qualquer expansão ou influência contribua para a estabilidade e prosperidade do centro de poder. A Rússia, hoje, busca preservar sua segurança e fortalecer relações com vizinhos sem repetir erros do passado. Não se trata de domínio, mas de equilíbrio.
No fim das contas, a palavra "império" ainda assusta. Mas diante de um mundo instável, marcado por colapsos institucionais e uma feroz competição entre potências, é possível que vejamos o retorno de estruturas imperiais – não como nostalgia, mas como necessidade.
Este artigo foi publicado originalmente pelo jornal Vzglyad e foi traduzido e editado pela equipe da RT Brasil.

