Notícias

Principal rival de Erdogan é preso na Turquia, protestos estouram em todo o país, e agora?

O prefeito de Istambul, Ekrem Imamoglu, representante do Partido Republicano do Povo (CHP), da oposição, foi acusado de várias acusações de corrupção e terrorismo.
Principal rival de Erdogan é preso na Turquia, protestos estouram em todo o país, e agora?AP / Francisco Seco

O prefeito de Istambul, Ekrem Imamoglu, representante do Partido Republicano do Povo (CHP), da oposição, foi preso na quarta-feira sob várias acusações de corrupção e terrorismo. A prisão, feita dias antes de sua esperada nomeação como candidato presidencial para as eleições primárias de domingo, provocou protestos em todo o país e teve um impacto negativo no mercado financeiro.

Do que Ekrem Imamoglu é acusado?

A popular autoridade é alvo de duas investigações separadas que envolvem outras 99 pessoas. No primeiro caso, ele é acusado de dirigir uma organização criminosa que se envolveu em fraude sistemática, suborno e fraude em licitações. Os promotores alegam que Imamoglu nomeou associados próximos de seu mandato anterior como prefeito do distrito de Beylikduzu, na cidade, para cargos importantes na Prefeitura de Istambul e em suas subsidiárias, formando uma rede que desviava fundos para empresas de fachada para obter ganhos pessoais, informa a agência de notícias turca Anadolu.

Além disso, os promotores alegam que a Prefeitura de Istambul tinha relações com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que é considerado uma organização terrorista pelo governo turco. Os promotores afirmam que dois líderes do grupo, Cemil Bayik e Mustafa Karasu, lideraram esforços para aumentar sua influência em Istambul antes das eleições locais de março de 2024, e que a oposição apoiou conscientemente o projeto aprovando listas de candidatos à prefeitura estrategicamente alinhados com os objetivos dos militantes.

Em uma ação separada, sua "alma mater", a Universidade de Istambul, anunciou na terça-feira que havia anulado seu diploma, citando procedimentos impróprios em sua transferência de 1990 de uma universidade na República Turca do Norte do Chipre, proclamada após a invasão das forças turcas depois de um golpe militar cipriota grego em 1974. Isso poderia desqualificá-lo para concorrer às eleições presidenciais, já que a constituição turca exige que os candidatos tenham ensino superior.

Reação da oposição

A oposição acusou o governo turco de estar por trás da prisão e a vê como uma manobra para tirar Imamoglu da corrida presidencial. De acordo com especialistas, o prefeito de Istambul poderia se tornar o principal oponente do presidente turco Recep Tayyip Erdogan na próxima eleição, programada para 2028, embora não esteja descartada a possibilidade de votação antecipada.

"Essa abordagem imoral e tirânica certamente será revertida pela vontade e resiliência de nosso povo", exclamou Imamoglu em uma mensagem de voz enviada quando a polícia estava em sua casa para prendê-lo. "Um golpe está sendo desferido contra a vontade do povo", escreveu em sua conta no X.

Protestos e queda nos mercados

Após a notícia da prisão, dezenas de milhares de pessoas encheram as ruas de Ancara, Istambul e outras cidades turcas para se manifestar contra o que aconteceu, apesar de o governo ter proibido todas as manifestações e protestos por quatro dias em Istambul.

"Está vendo, Erdogan? O que ele mais teme é que a multidão o chame. Desde ontem, ocorreram dois dos dias mais negros da história da república e da história de nossa democracia", declarou o líder do CHP, Ozgur Ozel, acusando o governo do país de realizar um "golpe".

As prisões também enervaram os investidores, já que o governo está lutando para controlar a inflação persistentemente alta. O mercado de ações do país caiu tão rapidamente que as negociações foram interrompidas duas vezes, enquanto a moeda nacional, a lira turca, se desvalorizou em cerca de 12%, atingindo o nível mais baixo de todos os tempos antes de recuperar parte de suas perdas.

O que diz o governo turco?

As autoridades do governo rejeitam as alegações de que as ações legais contra as figuras da oposição são politicamente motivadas e insistem que os tribunais operam de forma independente.

O Ministro da Justiça, Yilmaz Tunc, disse aos repórteres que a prisão não tem nada a ver com o governo. "Vincular investigações e casos iniciados pelo judiciário ao nosso presidente é, na melhor das hipóteses, presunçoso e inapropriado", disse ele.

"O que um político deve fazer é seguir o processo judicial", disse Omer Celik, porta-voz do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), partido do governo de Erdogan, segundo a AP. "Nenhum de nós tem qualquer informação sobre o conteúdo do processo criminal", acrescentou.

Nesse sentido, ele rejeitou as acusações de que a prisão seria um "golpe de Estado". "O nome do nosso partido e do nosso presidente só pode ser associado à democracia, ao contrário de um golpe de Estado", afirmou.

E agora?

Enquanto isso, a oposição convocou novos protestos planejados para o domingo, dia das eleições primárias, enquanto Ozel, o líder do CHP, declarou que as pesquisas para nomear seu candidato presidencial seguirão como planejado.

No entanto, a prisão do prefeito de Istambul representa um grande dilema para o CHP. Ele terá de decidir se continua lutando com Imamoglu ou se nomeia o prefeito de Ancara, Mansur Yavas, como seu candidato presidencial, informa o Politico.

Nesse cenário, a economia turca está se preparando para enfrentar uma maior incerteza econômica, observa a NBC. "As preocupações com o estado de direito persistirão e isso provavelmente prejudicará os fluxos de investimento estrangeiro direto de longo prazo, que já estão baixos, a menos que o governo do AKP consiga apresentar um caso convincente contra Imamoglu", disse Timothy Ash, estrategista de mercados emergentes da BlueBay Asset Management, conforme citado pelo veículo.