A constante negação do Ocidente ao direito internacional e às relações justas entre os Estados levou o mundo a uma "grande incerteza", afirmou o presidente da República Sérvia, Milorad Dodik, em entrevista ao ex-presidente do Equador Rafael Correa, no programa da RT "Conversando com Correa".
"O Ocidente acabou com os Acordos de Dayton na Bósnia e Herzegovina, um acordo internacional assinado pelos Estados em conflito à época, com as grandes potências daquele tempo e de hoje como garantidoras", disse Dodik.
Os Acordos de Dayton encerraram a guerra na Bósnia e estabeleceram a atual Bósnia e Herzegovina em duas entidades principais: a Federação da Bósnia e Herzegovina e a República Sérvia.
Dodik afirmou ainda que foi o Ocidente que desfez os Acordos de Minsk.
"Também ouvimos a ex-chanceler alemã Angela Merkel dizer que os Acordos de Minsk não precisavam ser implementados, que foram usados para ganhar tempo e permitir que os ucranianos se armassem contra os russos", declarou o presidente.
Segundo ele, isso demonstra a arrogância com que o Ocidente cria caos no mundo e suprime os direitos e objetivos de outros povos, destruindo acordos internacionais.
Colonialismo bósnio
Dodik criticou o fato de as potências ocidentais "nem sequer respeitarem as resoluções do Conselho de Segurança da ONU", citando a resolução 1244, que estabelece que o Kosovo faz parte da Sérvia. "O documento determina claramente como o conflito deve ser resolvido, mas nada disso preocupa EUA, Reino Unido, Alemanha e França", afirmou.
Ele lamentou ainda que a Bósnia e Herzegovina tenha atualmente sobre suas autoridades eleitas um alto representante nomeado pela comunidade internacional. Desde agosto de 2021, esse cargo é ocupado pelo diplomata alemão Christian Schmidt.
"Não concordo que uma única pessoa possa impor uma lei. Isso não seria possível em uma Bósnia e Herzegovina soberana. Não há nenhum outro caso no mundo em que uma pessoa fora do Parlamento possa impor leis", afirmou.
Dodik destacou também que, dos nove juízes do Tribunal Constitucional da Bósnia, três são estrangeiros. "A Bósnia e Herzegovina é um país instável, e a União Europeia está violando todos os seus princípios aqui. Por isso, não é um país soberano, mas uma colônia, uma colônia por excelência", afirmou.
- A República Sérvia (Republika Srpska) é uma das duas entidades autônomas que compõem a Bósnia e Herzegovina, estabelecida após o Acordo de Dayton em 1995. Habitada majoritariamente por sérvios bósnios, possui governo próprio e ampla autonomia política, embora integrada ao Estado federal bósnio.